Um encontro marcado com o Sol e a Lua
Por Álvaro Folhas
Doutor em Ciências da Educação e
Investigador no Centro de Investigação da Terra e do Espaço da Universidade de Coimbra
Coordenador para Portugal do Office of Astronomy for Education - IAU
No próximo dia 12 de agosto de 2026, os céus de Portugal serão palco de um dos fenómenos astronómicos mais fascinantes que podemos observar: um eclipse solar. Durante cerca de duas horas, a Lua irá passar entre a Terra e o Sol, ocultando progressivamente o disco solar e oferecendo um espetáculo raro que poderá ser acompanhado por milhões de pessoas em toda a Península Ibérica.
Em Águeda, o eclipse terá início cerca das 18h36, atingirá o seu máximo pelas 19h32 e terminará aproximadamente às 20h26. No momento de maior ocultação, a Lua esconderá cerca de 98% do disco solar, fazendo com que o Sol adquira a forma de uma fina crescente luminosa.
Como o fenómeno decorrerá ao final da tarde, será importante escolher um local com boa visibilidade para o horizonte oeste, sem edifícios, árvores ou colinas que impeçam a observação do Sol à medida que este se aproxima do ocaso.
Porque acontece um eclipse solar?
Embora o Sol tenha um diâmetro cerca de 400 vezes superior ao da Lua, encontra-se também aproximadamente 400 vezes mais distante da Terra. Esta extraordinária coincidência faz com que ambos aparentem ter praticamente o mesmo tamanho quando os observamos no céu.
Quando a Lua passa exatamente entre a Terra e o Sol, os três astros ficam praticamente alinhados. Nessa situação, a Lua oculta parcial ou totalmente o disco solar, originando um eclipse.
É um fenómeno simples de compreender, mas extraordinariamente belo de observar. Durante alguns minutos assistimos, literalmente, ao movimento da Lua à frente do Sol, percebendo que vivemos num sistema em permanente movimento.
Porque não há eclipses todos os meses?
Todos os meses ocorre uma Lua Nova, fase em que a Lua se encontra entre a Terra e o Sol. No entanto, a órbita da Lua está inclinada cerca de cinco graus relativamente ao plano da órbita terrestre em torno do Sol. Assim, na maioria das Luas Novas, a Lua passa ligeiramente acima ou abaixo do Sol, sem o ocultar.
Apenas quando o alinhamento acontece muito próximo dos pontos onde as duas órbitas se cruzam ocorre um eclipse solar.
O que será visível em Portugal?
O eclipse de 12 de agosto será particularmente interessante porque Portugal ficará muito próximo da faixa onde a Lua ocultará completamente o Sol.
No nordeste do país, numa estreita faixa do território, será possível observar um eclipse total, durante um curto intervalo de tempo. Nas restantes regiões, incluindo Águeda, observar-se-á um eclipse parcial, embora muito profundo, com uma ocultação de cerca de 98% do disco solar.
Mesmo quando apenas uma pequena parte do Sol permanece visível, a sua luz continua suficientemente intensa para provocar lesões graves e irreversíveis na visão. Por esse motivo, nunca se deve olhar diretamente para o Sol sem proteção adequada.
Como observar em segurança?
A observação de um eclipse solar exige alguns cuidados simples, mas fundamentais.
Devem ser utilizados exclusivamente óculos certificados para observação solar, que cumpram a norma internacional ISO 12312-2, ou equipamentos astronómicos equipados com filtros solares próprios colocados à frente da objetiva. Nunca devem ser utilizados óculos de sol, radiografias, películas fotográficas, vidros fumados, CDs, DVDs ou quaisquer outros materiais improvisados. Apesar de reduzirem a luminosidade visível, não bloqueiam adequadamente toda a radiação emitida pelo Sol e podem transmitir uma falsa sensação de segurança.
Quem possuir binóculos ou telescópios deve igualmente garantir que estes dispõem de filtros solares apropriados. A observação através destes instrumentos sem proteção adequada pode causar danos oculares praticamente instantâneos.
Uma alternativa segura e muito interessante consiste em recorrer à projeção da imagem solar, utilizando um pequeno orifício num cartão ou uma caixa escura, permitindo acompanhar toda a evolução do eclipse sem olhar diretamente para o Sol.
O que poderá notar durante o eclipse?
À medida que a Lua vai ocultando o Sol, a paisagem sofre alterações subtis.
A luminosidade torna-se progressivamente mais suave e as sombras ficam surpreendentemente nítidas. Sob árvores frondosas, os pequenos espaços entre as folhas transformam-se em centenas de pequenas câmaras escuras naturais, projetando no solo inúmeras imagens do Sol parcialmente eclipsado.
Poderá ainda sentir uma ligeira diminuição da temperatura e notar alterações no comportamento de algumas aves e insetos, que reagem à redução temporária da luz solar.
Estes efeitos tornam a observação particularmente interessante, mesmo para quem não dispõe de qualquer equipamento astronómico.
Uma oportunidade para toda a família
Um eclipse solar é um fenómeno que pode ser apreciado por pessoas de todas as idades. Não exige conhecimentos especializados, apenas curiosidade, alguma preparação e o cumprimento rigoroso das regras de segurança. Para além do dia escurecer durante o eclipse, verificar-se-á também uma acentuada queda de temperatura e eventualmente alguma agitação das aves, o que torna ainda a experiência mais significativa e inesquecível.
É também uma excelente oportunidade para conversar em família sobre o funcionamento do Sistema Solar, compreender melhor os movimentos da Terra e da Lua e recordar que muitos dos fenómenos que hoje explicamos com enorme precisão foram, durante séculos, motivo de admiração, receio e inúmeras lendas.
Um espetáculo previsto pela ciência
Hoje sabemos prever eclipses com uma precisão de poucos segundos, graças ao conhecimento acumulado sobre os movimentos dos corpos celestes. No entanto, essa precisão não lhes retira beleza. Pelo contrário: torna ainda mais fascinante saber que um alinhamento entre o Sol, a Lua e a Terra, iniciado há milhares de milhões de anos, continuará a repetir-se muito para além da nossa existência.
No final da tarde de 12 de agosto, olhe para o céu… mas faça-o em segurança. Se o tempo colaborar, terá oportunidade de assistir a um dos mais belos espetáculos que a Natureza oferece e de observar, com os seus próprios olhos, a extraordinária harmonia dos movimentos do nosso Sistema Solar.